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27/10/2014

Morrer é fechar uma porta que nunca esteve aberta

Martim abriu os olhos de repente, aterrorizado: tinha que se levantar e dar corda aos relógios! Não podia perder tempo, era para isso mesmo que tinha tantos, uma rede de ponteiros para não deixar escapar um único segundo.

E que agora tinham parado. O silêncio tenebroso era demasiado expressivo, demasiado intenso, não o queria, nunca o quis, precisava de dar corda aos relógios. Não o tinha conseguido fazer quando os ouviu parar, graças ao peso dos seus noventa e dois anos, que o levou a falhar uma ronda pela primeira vez, mas talvez agora que tinha morrido conseguisse.

Levantou-se com uma facilidade que não se lembrava de alguma vez ter tido e olhou em redor. Relógios, parados, com contornos difusos e esbatidos contra um fundo acutilante. A janela, fechada, quase invisível. E na cama, deitado, ele próprio. Velho, muito velho, e tão parado como os seus relógios.

Sentiu-se triste. Sozinho. Só ao olhar para si próprio percebeu o quão patética se tinha tornado a sua vida. Mais velho que velho, a gastar a maior parte das suas forças a dar corda a uma galeria imensa de relógios, preso na ilusão daqueles ponteiros todos, mas sem se preocupar em dar corda a si próprio.

Quis chorar, mas os ecos não choram, apenas repetem. Lembrou-se então de como era chorar. Fixou o olhar no seu corpo imóvel rodeado de lençóis e lembrou-se de sentir as emoções à flor da pele, as lágrimas a acumular e a caírem pelo seu rosto abaixo.

Chorou sem verter lágrimas, da mesma forma que existia sem viver. E não conseguiu evitar o destino de qualquer eco: repetir-se até desaparecer. Lembrou-se de mais coisas, cada vez mais intensas, cada vez mais próximas, mas antes de desaparecer tomou uma decisão.

Esforçou a memória para sentir a solidão que tinha sentido antes de morrer, e isso deu clareza aos relógios. Depois obrigou as mãos a lembrarem-se dos movimentos precisos para darem corda a um relógio, e começou a percorrer a casa, tique atrás de tique, taque atrás de taque. Começou a lembrar-se do barulho de cada um dos seus relógios e sorriu o mesmo sorriso de quando comprou o primeiro relógio, a verdadeira relíquia da colecção.

Quarenta minutos depois, tal como mandava o hábito, chegou ao último relógio a que tinha de dar corda. Sentou-se na beira da cama e encostou as mãos ao peito do seu corpo imóvel, e sentiu o coração a falhar como se estivesse a passar por tudo outra vez. Inspirou fundo, gritou o grito que tinha ficado perdido, e deu corda.

05/10/2014

Sozinho

Quando acordou não imaginava que ia morrer ao fim do dia. Levantou-se e fez a sua rotina normal, como se tivesse uma vida, uma década, um ano, um mês, uma semana, um dia pela frente. Saiu de casa e fez o caminho do costume, estava Sol, um dia bonito, disse os seus bons-dias e ouviu os dos outros, sorriu, assobiou, respirou, sentou-se.

Ouviu a chefe, ouviu os colegas, ouviu os clientes, não reteve nada. O seu trabalho era ouvir, não era lembrar. Ouvia, respondia, ouvia, respondia, ouvia, respondia, sempre tinha funcionado e sempre iria funcionar, para quê forçar outra coisa?

Um telefonema. Acabou de chegar do almoço com alguns colegas, durante o qual distribuiu piadas e gargalhadas como se se quisesse ver livre delas. O telefona toca a sua hora, e ele atende-o a toda a hora, é esse o seu trabalho, mas com aquele telefonema pensou duas vezes.

O telefone tocou da mesma forma, nada aconteceu de diferente. Excepto a percepção que ele teve. Não ouviu o telefone, ouviu a urgência de quem estava do outro lado, a urgência de quem precisa de falar, a urgência de quem acha que está a lidar com a morte.

Atendeu. O pai morreu, diz a irmã, chorosa, urgente, sem perceber. Desliga o telefone, a irmã continua a chorar e a não perceber, não dá conta. Ele continua a falar com clientes, porque percebe, sabe que o pai não morreu, a irmã apenas acha que sim. Se o pai tivesse morrido, ela não tinha urgência nenhuma, para quê sentir urgência com a morte, com os mortos? Não vão a lado nenhum.

Saiu do trabalho já com o Sol fora de vista, e ligou o telemóvel. Tinha-o desligado para não ter que ouvir mais ninguém que não percebia. O meu pai morreu, o teu pai morreu, ele era o meu tio favorito, gostava tanto dele, quem me dera ter passado mais tempo com ele, o teu pai morreu.

Ignorantes, todos, todos, todos. Inúteis. Não percebiam. Mas ele sim. Ele foi até ao cruzamento do costume e virou para a rua errada, andou ao ritmo errado, procurou pela casa certa. Bateu. Tocou. Abriram e entrou.

O meu pai morreu. Oh meu deus oh meu deus oh meu deus, estás bem, o que é que aconteceu, como é que te sentes. Voz urgente, tom urgente, sentimentos urgentes, pessoa urgente, pessoa ignorante. Não, também não percebia. Por muito amiga que fosse dele, também não percebia. Não percebes, o meu pai morreu, mas tu não percebes, não percebo o quê, não percebes, não dizes coisa com coisa, não preciso, o meu pai morreu.

Saiu, a amiga ligou à irmã dele, choraram as duas, não ligaram ao comportamento dele, está em choque, não aguentou, não atende o telemóvel a ninguém. Enquanto isso ele saiu da casa certa, ao ritmo certo, em direcção à rua certa e chegou a casa. Deixou-se cair na poltrona e agarrou na fotografia que estava na mesa ao lado, olá pai, olá filho, morreste, não morri nada, eu sei, eles não percebem, pois não, só tu meu filho, só eu, só eu, só eu, vem ter comigo, vem tu, não posso desmorrer, nem eu posso desviver, mas podes morrer.

Largou a fotografia, foi buscar uma faca, saiu um garfo, deixou-o cair, tirou uma faca, agora sim, voltou à poltrona, não escreveu bilhete, não pensou duas vezes, espetou-a no coração, que também não pensou duas vezes e morreu. O pai morreu e agora o filho, e a fotografia caiu, encheu-se de sangue, não era uma fotografia, era uma folha em branco.

27/09/2014

No escuro


És uma pessoa normal. Dois olhos, duas pernas, uma boca, um coração, medo do escuro. Tudo aquilo que faz de ti um ser humano e ainda uma consciência. Um bónus completamente desnecessário. Tens noção disso, não tens?

Afinal, o objectivo de uma consciência é estranho, complicado e frequentemente pouco agradável. Remorsos. Pena. Angústia. Não deixas de fazer coisas “erradas”, apenas te sentes mal depois de as fazeres. E com o tempo, até isso passa. Os remorsos de prejudicares alguém diluem-se no bem-estar de te beneficiares a ti próprio.

É por isso que te estás a vestir. Já é tarde, bem de noite, mas não é isso que te impede de te vestires como se fosses fazer exercício. Nem de agarrares nas tuas “ferramentas”. Nunca vi ninguém chamar ferramenta a um martelo de forma tão errada. Gosto de ti.

Lembro-me perfeitamente de quando começaste. Sem dinheiro, sem ninguém, sem vida. Não passavas de mais um humano patético à espera de morrer. Até que aquele amigo te ligou. O que nunca te tinha ligado. O que conhecias tão mal que demoraste alguns segundos até reconhecer a voz rouca e mal tratada do outro lado.

“Então, o que dizes?”

Tão inocente. Nem pensaste duas vezes. Como qualquer falhado, a expectativa de um pouco de adrenalina deixou-te nos píncaros. Seguiste a canção da sereia mascarada de traficante de rua. Tinhas uma vida aborrecida. Querias algo mais.

Porque não assaltar casas?

“Quando?”

E agora aqui estás, sempre pronto, sempre desejoso. A adrenalina já ficou para trás, e pouco depois seguiram-se os remorsos. A única coisa que te move agora é o medo. Medo de seres apanhado, medo de levares um tiro nos cornos, medo de que a tua família saiba. Tanto medo e ainda não acertaste naquele com que te devias preocupar mais.

Eu sei que já ninguém assume ter medo do escuro, mas por alguma razão acendes sempre as luzes dos sítios por onde passas. Por algum motivo páras durante uma fracção de segundo sempre que passas os olhos por algum canto escuro e insuspeito, até na tua própria casa.

Até pode ser inconsciente, a maior parte das vezes, mas sabes que mais? Tens razão. Tens toda a razão. Deves ter medo do escuro. Estou cá eu.


26/09/2014

No escuro #6

E o melhor de tudo é que no escuro tu não gritas. Nem pestanejas. Apenas tremes de medo. Sei-o bem. Consigo ver-te.

25/09/2014

No escuro #5

É fácil distraires-te. Não vês, não ouves, mas sentes que está lá. Encoberto. À espera. Nesses momentos em que tudo parece parar, faz-me um favor: sustém a respiração, acalma o coração, não te mexas e concentra-te. Eu sei que percebes. Está ali.

24/09/2014

No escuro #4

O que quer que seja, também não faz barulho. Vive silenciosamente, acompanhado apenas de ausência. Não te quer para nada, não precisa de ti. Mas então... Porque é que te calas? Quando fica escuro, porque é que falas menos e ouves mais? Não há nada para ouvir, excepto a tua própria respiração, talvez o bater do teu coração. Não achas isso estranho? Quando apenas o que vive na escuridão te pode ver, ganhas mais noção do teu próprio corpo. Mas não era a ti que devias prestar atenção.

23/09/2014

No escuro #3

A única razão para algo viver no escuro é não querer que o vejas. Ou não. Talvez não se queira ver a si próprio. Talvez goste de estar rodeado de escuridão. Por ser confortável. Sossegado. Escuro.

22/09/2014

No escuro #2

Já alguma vez pensaste no que é que vive no escuro? Porque é que a escuridão se faz tão impenetrável? Tem alguma coisa que não quer que tu vejas. Nem tu, nem ninguém. Algo que vive na escuridão, algo que olha para ti sempre que está tão escuro que reparas nisso, algo que nunca vês.

21/09/2014

No escuro #1

Gosto do escuro. É negro, é vasto, é sufocante. É confortável. Ninguém se quer aventurar no escuro, nem sequer olhar ou pensar nele. Mas ainda bem. A escuridão vive melhor sozinha. O medo que cria é propositado: se a explorassem, deixava de existir.

17/07/2014

O Jardim

Sentado no carro, viajas sem sair do sítio, de olhos fixos na janela. Não sabes se olhas para a janela ou pela janela, para a paisagem que corre do lado de fora, na direcção contrária à tua. Da mesma forma, não sabes o que sou eu. Mas sentes-me, e de certa forma és eu, ou eu sou tu, pelo menos em parte. É por isso que posso dizer que sou eu que olho pela janela, ou talvez para ela, e vejo o mundo a fugir lá fora.

Os olhos que uso são os teus, os meus, os nossos. O cenário que vemos é igual a tantos outros, de outras tantas viagens que já fizemos. Temos a cabeça encostada, a sofrer com as leves pancadas causadas pelo mais pequeno dos solavancos. Ocasionalmente, um carro que passa tapa-nos a vista, mas não damos importância. A vista não é nada de especial.

Antigamente, quando as pessoas tinham momentos como este, aproveitavam para pensar. Estes momentos escasseiam hoje em dia, e se calhar é falta de hábito, mas temos aqui um à nossa disposição e a tua vontade é desperdiçá-lo.

É neste momento que me abstraio do facto de ser tu e de seres eu e te observo com os olhos da tua mãe, que vai a conduzir e olha para ti pelo espelho retrovisor. Aquilo que vemos é um filho aborrecido, de olhar baço e fixo no vazio. Podíamos chamar-te, mas tens os auscultadores enfiados nos ouvidos, provavelmente não ias dar por nada. Suspiramos e voltamos a prestar atenção à estrada. Pensamos em como gostávamos que fosses mais feliz, menos melancólico, mais activo. E passados dois minutos pensamos em como não nos podemos esquecer de marcar a ida ao cabeleireiro, e de como…

Incrível. Não consegui suportar mais a consciência daquela mulher que se diz tua mãe. Por mais vazio que aparentes estar, prefiro ser tu. Podia ser o teu pai, mas esse dorme, no lugar ao lado da tua mãe, mesmo à tua frente. Durante o sono, eu não existo.

Mas agora olho novamente pelos teus olhos, que começam a ameaçar fechar-se de sono. A paisagem continua a passar por nós, assim como os carros, a primeira numa direcção, os segundos noutra, e nós imóveis. É claro que sabemos perfeitamente que estamos a andar, mas não é isso que sentimos. E é isso que importa, porque…

Um carro. Mais importante que isso, um pensamento teu, genuinamente teu, brusco e repentino. Um carro. Um carro com uma rapariga lá dentro, sentada no banco de trás, e que cruza o olhar com o teu. Está tão mortiço quanto o teu, mas no preciso momento em que o cruza contigo, e nos poucos segundos em que o contacto dura, os seus olhos alegram-se. Ela sorri-te. Depois fica para trás.

Só agora que ela desapareceu é que reparas no seu cabelo preto e nos seus olhos verdes, uma combinação invulgar. Era uma rapariga bonita, que por algum motivo se alegrou ao olhar-te nos olhos, e te sorriu. Sorris para ti próprio, não o sorriso triste que costumas exibir, mas um sorriso genuíno. O olhar com que agora atravessamos a janela já não é um olhar baço, mas um olhar activo, vivo, que não se deixa prender no vazio e vagueia pelo constante movimento do mundo que passa.

Tenho dificuldade em dizer o que vemos e o que vês. Porque há uma diferença. Aquilo que vês é por uma vontade própria que eu não posso controlar de forma alguma. Aquilo que vemos é aquilo que tu vês sem querer, aquilo para que olhas mas não vês.

Neste momento, animado pelo sorriso da rapariga, vês os carros que passam, mas não vês a paisagem. Concentras-te nos passageiros, numa busca semi-inconsciente de outra rapariga invulgarmente bela que te sorria e à qual possas retribuir o sorriso, e ignoras as nuvens que passeiam no céu. Passaram três carros, e agora que não tens nenhum à frente, focas o olhar na paisagem e vês finalmente as nuvens, aquelas grandes massas brancas que te sobrevoam e a tudo. Perdido em contemplações, não reparas nos carros que recomeçam a passar, em rápida sucessão. Nenhum leva uma rapariga que te pudesse sorrir, mas para que precisas disso quando tens as nuvens?

Este pensamento foi teu e isso deixa-me de alguma forma feliz. Sim, foi o meu consciente que se intrometeu no teu subconsciente e te estimulou o suficiente para pensares que preferes a visão do céu inundado de nuvens ao sorriso de uma rapariga, mas o pensamento foi teu. Este pensamento leva-te a outros, porque é que o céu é azul?, de que são feitas as nuvens?, uma cadeia de perguntas para as quais não tens resposta, pelo menos de momento. Como é que eu posso fazer-te perceber que estás no caminho certo, e que o deves forçar? Que essas perguntas sobre o céu e as nuvens são pertinentes e importantes, que as memórias que isso te traz de quando eras mais novo são igualmente pertinentes, que os gritos que estás a ouvir dentro da tua cabeça, lembrados vivamente de todas as vezes que o teu pai se chateou contigo quando eras criança, são ainda mais importantes, como…

De repente, vemos o céu. As nuvens continuam o seu trajecto, mas o teu olhar já não as segue. Em vez disso, o nosso olhar está preso num ponto fixo do azul imenso acima de nós. As memórias foram demasiado fortes, demasiado depressa. Como qualquer pessoa, não gostas das lembranças mais desagradáveis, e não percebes que elas não são erradas.

Mas não és o único que não percebe alguma coisa. Eu também não tinha percebido que além de olhares os carros e ignorares o céu, ou olhares o céu e ignorares os carros, também olhavas o mundo e ignoravas a morte cá dentro. A única morte que não me anula por completo, a da mente.

Ficamos com os sentidos embotados e os olhos baços. Olhamos para fora mas o que vemos são as reminiscências cá dentro, a vez em que o teu pai te bateu por estares a fazer uma birra, o dia em que a tua mãe se esqueceu de te ir buscar à escola, o intervalo em que a rapariga que gostavas há dois anos te rejeitou… É isto que te mata, e tu não percebes isso.

Eu compreendo que seja difícil, até porque tu achas que percebes, ficas na ilusão e não percebes realmente. O que tu achas é que essas memórias te matam. São elas que te causam dor, que te fazem ter maus pensamentos e, portanto, deduzes que são elas o que está mal. É por isso que as evitas o mais possível, e é também por isso que não as consegues evitar e acabas sempre por ter momentos como este, em que te magoas de livre vontade, sem teres noção disso. Mas como é que eu te posso fazer ver que estás errado? Que não são essas memórias que te matam, mas sim a forma como olhas para elas? Não aquilo de que te lembras, mas exactamente a forma como te lembras?

Enquanto não encontrar forma de fazer isso, ou não chegares lá por ti próprio, a única coisa que posso fazer é ver o que vês, sentir o que sentes, e tentar que penses o que eu pense. Se te conseguir influenciar minimamente, talvez percebas. E depois de perceberes o que estás a fazer mal, talvez consigas começar a perceber-me a mim, e aí o meu objectivo estará cumprido. É uma hipótese pequena, mas não a posso simplesmente desperdiçar.

Baixamos o olhar do céu, que já nos doía o pescoço, e fixamos o olhar de forma automática na paisagem que está para lá da estrada. Vários tons de verde e de castanho, com manchas indistintas de outras cores espalhadas por todo o lado. É isso que vemos. Isso e um grande aglomerado de pequenas manchas coloridas sobre um fundo mais claro, ainda indistintas lá ao longe. O nosso olhar aviva-se e é agora teu. Observas as cores ordeiramente circunscritas num grande rectângulo, a uma certa distância daquilo que parece ser uma aldeia. Na tua mente já decidiste que o que vês é um jardim, um grande e bem cuidado jardim que por alguma razão os habitantes daquela aldeia mantêm.

Sorris. Não costumas pensar muito nessas coisas, mas a existência daquele jardim deixa-te feliz, embora não tenhas bem noção do porquê, o que me agrada. A felicidade não foi feita para ser percebida, mas sim para ser sentida. É por isso que distinguimos pensamentos de sentimentos, e ambos de sensações.

Continuas a olhar para o jardim, de certa forma ansioso por ficares perto o suficiente para o veres com detalhe. Já consegues imaginar os canteiros organizados por cores, ou por tipos de flores, talvez ambas as coisas, rodeados por pequenas cercas de madeira e tapetes de pétalas caídas. O branco que vês por entre as cores podem ser lajes que permitam aos habitantes passearem pelo seu jardim sem o danificarem.

No fim de cada dia, um grupo de habitantes iria percorrer o jardim, varrendo as pétalas, limpando as lajes, ajeitando as flores e regando os canteiros. E no dia seguinte um novo grupo iria remover as flores estragadas, mortas ou ressequidas, para deixar o jardim absolutamente incólume e pronto para mais um dia de visitas e de passeios. Ocasionalmente, os habitantes iriam deixar forasteiros percorrer as pequenas alamedas floridas, para que também eles pudessem sentir os odores que se desprendiam de cada canteiro e talvez tivessem um pouco de inveja dos habitantes que, orgulhosos e vaidosos, se iriam limitar a exibir a sua obra um pouco mais.

É assim que imaginas o jardim e o seu dia-a-dia, ainda sem saberes se é de facto um jardim. Olhando pelos teus olhos, à distância a que te encontras, concordo contigo, parece de facto um jardim, e tão cheio de Vida como tu deverias estar. À medida que o carro se aproxima, começas a imaginar rápidos cenários em que tu és o protagonista que percorre o jardim, tão belo e imaculado como sempre, vigiado pelos habitantes e pelo seu orgulho, em busca da tua amada, que talvez seja a rapariga de cabelos negros e olhos verdes de há pouco, ou talvez seja outra rapariga que desconheces ainda. Mas se calhar não andas à procura da tua amada, mas sim de um lugar vazio para plantares o teu próprio canteiro, com flores que trouxeste de longe, desejoso de que figurem naquele jardim que para ti já é o Jardim.

O carro aproxima-se o suficiente e os teus olhos arregalam-se, pois o Jardim que observavas e com o qual já sonhavas acordado é na realidade um cemitério. A primeira coisa que te passa pela cabeça, é como é que é possível que uma aparência tão bela e tão cheia de vida esconda algo como um cemitério? Não compreendes o porquê de tanta cor por entre os mortos, a razão das flores arrumadas em cima das campas, o porquê de teres visto um jardim onde está um cemitério.

Daqui.

Como é que te podes ter enganado tanto?, perguntas tu, enquanto eu espero que consigas perceber que não te enganaste assim tanto, pois um cemitério não é mais do que um jardim, em que em vez de flores há paz. No Jardim não se deitam sementes à terra, mas corpos, é verdade, mas aquilo que se está a plantar não são árvores, flores ou plantas de qualquer espécie, mas paz, e não para os que partem, mas para os que ficam.

Mas noto que a tua visão continua a ser tua e não nossa. A revelação chocou-te, mas não foi o suficiente para te afugentar para dentro da tua carapaça imune a mim. E continuas de olhos fixos no Jardim. Não desvias a cara nem deixas embotar os sentidos, despertos pelo autêntico sonho acordado do Jardim. Vês a tua suposta amada com os cabelos negros a tremerem e os olhos verdes cerrados com força, tristeza salgada a verter abundantemente. Encontraste-a, por fim, mas não estás num cenário feliz, estás num cemitério, e ela está ali a chorar a morte de alguém. As flores que tens na mão são as cinzas de alguém que prometeste depositar ali, vieram na mesma de longe e tens o mesmo desejo de que figurem ali, no Jardim. Encontras o lugar apropriado, baixas-te e depositas as cinzas, que são de imediato varridas pelo vento que se levanta. Atrás de ti está a rapariga, ainda a chorar. Sentes-te a ser arrastado pelo vento, desagregado em milhares de pequenas partículas de pó cinzento, e percebes que ela chora por ti.

Sem que o queiras, uma lágrima cai-te pela cara abaixo. Todas as imagens que tinhas imaginado fugazmente estavam agora transformadas em imagens de dor e sofrimento, e não consegues lidar com isso. Onde antes vias um jardim, belo como nenhum outro, um lugar de felicidade e de pureza, bem tratado e asseado, com pequenas alamedas floridas que podias percorrer em busca de alguém ou de alguma coisa que apenas te ia trazer amor e felicidade, vês agora um sítio de morte, de beleza triste e decadente que os habitantes da aldeia tentam contrariar com as flores de cores vivas, mas que acabam por morrer como qualquer outra coisa viva.

Tinhas conseguido despertar, ainda que por momentos e não completamente, do teu torpor de sentimentos e tinhas-me sentido por instantes, até ao momento em que foste confrontado com a realidade e não foste capaz de optar pela melhor forma de a encarar. Agora choras silenciosamente, pois sabes, ou achas que sabes, que o mundo não vale a pena. Já nem sonhar te é permitido. Aqueles vagos momentos de felicidade não passaram de uma ilusão, pensamos nós, e é nesse momento que me apercebo que estou quase a perder-te. Já consigo ver pelos nossos olhos e não meramente observar pelos teus.

Limpamos as lágrimas, antes que alguém dê por isso e começamos a fechar os olhos. Sentes-te derrotado e esse sentimento é tão forte que se alastra a mim. Agora sou eu que me pergunto como é que o que acabou de acontecer é o suficiente para te vencer, mas um vislumbre pelas tuas memórias responde-me à pergunta. Já passaste por muito. Ilusões de felicidade não são para ti, já tens noção que isso é uma coisa que não existe. Já não te lembras de estar verdadeiramente feliz, e cada vez vês menos possibilidades de isso voltar a acontecer. Queres desistir.

Estás quase a adormecer, mas um solavanco mais forte do carro acorda-te mesmo a tempo de lançares um último olhar na direcção do Jardim, um olhar esperançoso de ainda ver algo que te tenha escapado e que te prove que estás errado, mas abandono-te rapidamente, pois o que viste provou-te que estavas certo e desististe de mim.

Aquilo que viste fez-te deixar definitivamente de Viver para passares simplesmente a sobreviver, e quem diria que um momento tão mundano como este poderia ter uma influência tão grande em alguém? A verdade é que não foi um momento assim tão mundano, pois aquilo que viste também me fez vacilar por breves instantes: no último olhar antes do carro ultrapassar o Jardim, com uma última lágrima, reparaste que o cemitério é maior que a aldeia.

08/07/2014

Assunto: Não sei que diga...

De: Rui
Para: Beki
Data: 06/07/2014 às 00:42

Cheguei agora a casa. Envio-te também a transcrição do guardanapo que encontrei hoje. Estava num armário nos laboratórios de som e imagem, fui lá falar com esse tal Sneaky e aproveitei para dar uma vista de olhos e encontrei isso e...

Desculpa lá os atropelos gramaticais, mas não estou em mim. Já tentei eu próprio ligar para a Alice, mas bati na mesma parede: uma mensagem gravada a dizer que ela está nas Maravilhas. Não sei quando foi a última vez que falei com ela, mas lembro-me da conversa como se tivesse sido ontem. Deve ter sido uma ou duas semanas antes de te encontrares com ela.

Não tínhamos combinado nada. Dei com ela numa feira de livros usados, muito concentrada a admirar um livro volumoso de mil oitocentos e qualquer coisa sobre ervas medicinais. Comentei casualmente que mais valia tomar uma aspirina e abrir o Google, mas ela começou a barafustar que eu não entendia, que ninguém entendia, e parecia pronta a esborrachar-me o nariz com o calhamaço quando se apercebeu de quem eu era.

Se conseguisse descrever satisfatoriamente a fúria que lhe vi no olhar e a forma como esmoreceu e se apagou completamente, escrevia um livro. Foi como ver uma onda prestes a abater-se sobre nós a revelar-se uma fina parede de neblina. Fiz um qualquer comentário sarcástico e convidei-a a dar uma volta por ali. Ela pareceu mais cansada do que nunca, largou o livro e acedeu.

Agora não me perguntes como, mas acabamos a debater a necessidade de um ser divino não precisar realmente de existir para ser real. Eu nem sei bem como fomos parar a isso, mas também nunca sei como é que as minhas conversas com a Alice fluem. São sempre fascinantes, isso sim.

O que interessa é que no fim usei um argumento de que ela não gostou. Qualquer coisa como "se existe algum tipo de deus, como é que não há nenhuma prova?" Começou a aumentar o tom de voz, a gesticular, a ficar vermelha, vi a fúria a ressurgir nos seus olhos claros e antes de ter hipótese de a acalmar, ela virou costas e desatou a correr por uma ruela. Escusado será dizer que com aquela agilidade de bailarina rapidamente a perdi de vista e nem tentei correr. Liguei-lhe no dia seguinte, mas ela limitou-se a desligar-me o telefone na cara.

Assumi que se tinha chateado e deixei andar. Vi-a algumas vezes na rua, mas ela ignorou-me de todas as vezes. Não liguei mais ao assunto, que tenho pouca paciência para estas coisas, e já me tinha esquecido do assunto até ler a tua história. Peguei logo em mim e fui à faculdade dela tentar encontrar esse tipo, o Sneaky, que não me disse nada de novo mas que me deixou dar uma vista de olhos à procura de nem sabia eu bem o quê. Encontrei o guardanapo, rabiscado e rasgado num canto. Já fui a todos os sítios que ela costuma frequentar e só consegui encontrar pessoas que a viram pela última vez há cerca de um mês.

Não sei o que achar! Mas acho muito estranho que depois da nossa conversa ela te tenha dito que tinha algo para te mostrar e depois tenha ido buscar um microfone. Tenho medo que ela tenha feito alguma loucura, Beki. Achas que ela se terá atrevido a tentar? Nem tenho coragem de o dizer. Ainda tens a chave da casa dela? Podes lá ir e ver se... Se o livro ainda lá está? Depois diz qualquer coisa e tem cuidado.

Rui Bastos

23/06/2014

Miseráveis II


Naz Mina Mert

Duzentos o serviço completo”, disse a voz fria de Isabella. Era só mais um cliente à procura de sexo fácil. Caro, mas fácil.

“Dou-te cento e oitenta”, respondeu o homem, claramente desesperado, a voz a tremer. A sombra de Isabella acha-o uma criatura frágil, mas a fragilidade também lhe parece demasiado óbvia. Um homem pobre, desesperado e infeliz, um homem em busca de amor, por mais fugaz que seja, um homem que sai à noite para visitar prostitutas e não se queixa do preço demasiado alto. Um miserável.

Misturando-se com a escuridão dos corredores do bordel, a sombra da prostituta começou a esticar e a retrair os seus filamentos negros. Estava nervosa. Isabella era o seu corpo e quem lhe emprestava as formas exageradas e acentuadas de uma mulher a entrar em lenta decadência, mas a recusar reconhecê-lo. Já não seria a primeira vez que um homem a tentava matar, depois de ela tirar a roupa e ver a mercadoria carnal pela qual estava a pagar.

E o que é a sombra de um cadáver?

Os saltos de Isabella percorreram o seu pequeno quarto, primeiro seguidos pela sombra e depois atirados para o canto oposto. Eram demasiado altos, demasiado brilhantes, demasiado tudo. E eram sempre os mesmos. A sombra conhecia-os quase tão bem como a Isabella, o barulho que faziam ao percorrer o soalho de madeira, os sítios onde estavam mais gastos e já não brilhavam, os remendos bem disfarçados que já quase tinham feito desaparecer os sapatos originais. E o vermelho. Tão vivo, tão sensual, tão marcante. Tudo o que a sombra não era. Mas também um vermelho decadente e repulsivo, um vermelho miserável. Mais do que aquilo que a sombra era.

“Sabes, as meninas assustam-se muito contigo.”, comentou casualmente Isabella enquanto sentava o homem na cama e andava descalça pelo quarto, provocante, a sombra a dançar atrás dela e com ela, a acompanhar e a imitar todos os movimentos, numa sintonia tão perfeita que não era possível dizer quem guiava e quem seguia. Quem vivia e quem morria.

E o que é a sombra de um cadáver?

O homem continuava silencioso. Quando Isabella interrompeu a dança e começou a dança do seu ofício, a sombra olhou finalmente para o homem e perdeu a noção de tudo. Sentado na cama estava um corpo sem vida, mas com um coração que batia, uma cara incompleta com uns olhos que viam. Sentado na cama estava um homem que não sentia, ou que sentia demasiado. Sentado na cama estava um homem que a sombra não percebia.

O vestido de Isabella caiu ao lado da cama, dobrando-se sobre si próprio num círculo de tecido de cor desinteressante. A sombra sentiu-lhe o cheiro e a textura, mas ignorou-o, pois a prostituta tinha à sua frente um homem marcado. Os sulcos que lhe percorriam a cara eram aleatórios, mas não pareciam. Linhas irregulares que se estendiam de cima para baixo, ou de baixo para cima, a sombra não conseguia dizer. Os dentes do homem eram visíveis no lugar onde devia haver lábio. Metade do nariz tinha desaparecido, e um dos olhos era completamente branco e seguia os movimentos libidinosos de Isabella sem realmente os ver.
Com os braços, a prostituta rodeou o pescoço do homem e aproximou a cara da dele, sem reagir minimamente à desfiguração. Fixou o azul deslavado do seu olhar no castanho vivo do único olho são do miserável à sua frente e murmurou qualquer coisa que a sombra não conseguiu ouvir.

Beijou-o.

Os braços magros de Isabella tiraram a roupa ao homem com meia cara e ela sentou-se em cima dele, provocadora como sempre. As sombras de ambos misturaram-se, mas a do homem não reagiu. Limitava-se a seguir os vagos movimentos de um homem destroçado, estremecendo com ele ao toque de umas unhas compridas nas feridas da cara.

Quando a sombra de Isabella percebeu que a do homem estava morta, era tarde demais, os corpos já se tinham enlaçado e mexiam-se freneticamente, entregues a uma ilusão de paixão. Os gemidos e os gritos e os suspiros, tudo misturado nas respirações aceleradas de duas pessoas que não se conheciam mas que enquanto se tocassem, se amavam.

De repente o homem soltou um gemido estrangulado e caiu quase inerte e a arfar sobre o corpo da prostituta que, sem dizer nada, esperou que ele se levantasse para se vestir. A sombra conseguia sentir nos seus movimentos que não gostava daquele trabalho. Quando começou pensava que preferia morrer.

E o que é a sombra de um cadáver?

Isabella estendeu a mão, sem esperar que o homem se vestisse. O olhar duro dizia tudo o que era preciso: paga.

“Eu...”, o tom hesitante era sempre mau sinal, mas a sombra de Isabella estava distraída com a sombra morta do homem com meia cara, “Eu só tenho cem euros.”

Sem pensar duas vezes, a prostituta aproximou-se e beijou-o na testa. Talvez tenha sido da cara do homem, ou da honestidade com que ele se perdeu no corpo dela, mas Isabella perdoou-o. Sabia o que era estar sem dinheiro. Estava naquela profissão por uma razão. Ele que tivesse cuidado e não assustasse as meninas.

“Mas e o dinheiro?”

“Pagas para a próxima.” como se fosse haver uma próxima. A sombra sabia bem que não. Isabella não tinha feito dinheiro suficiente para pagar o que devia, no fim da noite. Aquele homem marcado era a sua última hipótese. Mas ela não se importava. Tinha-o feito feliz.

“Como é que sabes que nos voltamos a ver?”

“Eles voltam sempre”, disse ela enquanto o homem saía do quarto, “mais tarde ou mais cedo, mas voltam sempre”. A sombra deslizava atrás dele, mas estava morta. Miserável.

E o que é o cadáver de uma sombra?

05/06/2014

Cega?



Gritou. Assustou-se com o desespero do seu próprio grito. Levou ambas as mãos aos olhos sem pupilas, que vertiam lágrimas cegas. No sonho de que acabara de acordar, sonhara que via e que distinguia as coisas pelas cores e pelas formas. Só quando acordou e se viu imersa nas já demasiado familiares trevas é que conseguiu descansar o coração, que ameaçava saltar-lhe do peito. Suspirou, abriu bem os olhos, sem réstia de sono, e nada viu, apenas o negrume de sempre. Sorriu, debilmente, e fechou os olhos. Gritou. Assustou-se com o desespero do seu próprio grito. Levou ambas as mãos aos olhos negros, que vertiam lágrimas brilhantes. No sonho de que acabara de acordar, sonhara que não via, e que nada distinguia no meio da escuridão. Só quando acordou e se viu imersa nas magníficas cores do mundo que a rodeava é que conseguiu descansar o coração, que ameaçava saltar-lhe do peito. Suspirou, abriu bem os olhos, sem réstia de sono, e tudo viu, cheio de cores como sempre. Sorriu, debilmente, e fechou os olhos. Gritou.

bizzar

21/05/2014

O Assalto

Peter Lee

“Todos para o chão!”, grita o mais gordo, “Já!”. A caçadeira sónica treme um pouco nas suas mãos, como se não estivesse habituado. Parece nervoso. Deito-me sem hesitar no chão frio, mas um saturnaneliano do outro lado da sala não obedece, as partículas gasosas que o constituem a densificarem-se numa série de tentáculos finos que deslizam por um teclado repleto de símbolos incompreensíveis dentro do tubo que o contém. 

“Mas estão a brincar?”, exclama o saturnaneliano, via sintetizador que lhe empresta uma voz, “O que é que pensam que estão a fazer?”. Um outro homem, mais magro, toca no ombro do gordo e aponta para mim. Sou incapaz de desviar o olhar, talvez seja eu o próximo, mas ambos os homens desistem depressa. 

O gordo levanta a caçadeira sónica e aponta-a ao vidro do tubo de viagem do saturnaneliano, “Para o chão!”, a voz treme-lhe, nervoso, “Não volto a r-r-repetir!”. Tanto eu como todos os outros seres presentes na sala observamos a cena, à espera da reacção do alienígena gasoso, que não se faz esperar: pressiona furiosamente uma combinação de teclas com os seus tentáculos semi-sólidos, e uma portinhola abre-se rapidamente por baixo do vidro, revelando uma série de orifícios redondos, as pontas mortíferas de pequenos desintegradores laser. O gordo olha novamente para mim, consigo ver o suor a escorrer-lhe pela testa. Engole em seco e, antes que o saturnaneliano tenha tempo de reagir, pressiona o gatilho, disparando uma potente onda sónica. 

Só tenho tempo de cobrir a cabeça com os braços antes dos estilhaços me atingirem, felizmente demasiado desfeitos para me ferirem. Quando levanto a cabeça, depois de deixar o pó assentar, não há um único vestígio do saturnaneliano, excepto a camada de detritos do seu tubo de viagem misturados com outros tantos da sala em redor. O gordo treme convulsivamente e quase deixa cair a caçadeira, mas o magro tira-lha das mãos antes que isso aconteça, dando-lhe palmadinhas no ombro e passando-lhe para as mãos uma mala com o conteúdo a chocalhar. 

“Vá, sabes que não podemos parar agora…”, diz o magro, tão baixo que apenas eu e uma jovem de Marte mais perto deles conseguimos ouvir, “Leva a mala e vai abrir o cofre.”. O gordo hesita, olha-me novamente, o terror estampado nos olhos, provavelmente por nunca ter matado ninguém antes, e acho que consigo ver uma pequena faísca de vontade. Vontade de me matar.

Habituou-se depressa. 

Enquanto o gordo se dirige para o fundo da sala, com a mala a chocalhar por todos os lados, o magro percorre toda a gente com o olhar, mais firme que o do outro homem, mas não por muito. Um misterioso trio de túnicas e capuzes negros mantém as mãos quitinosas em cima da cabeça, enquanto fitam o chão. Não reconheço de onde vêm, mas sei que aquilo que parece uma lesma esverdeada, grande e gorda, com um Regulador Térmico embutido no corpo é uma fêmea de Plutão. Um velhote humano está a ficar ensopado no visco da plutoniana, derramado por vários poros na parte inferior do seu corpo devido ao nervosismo. A jovem de Marte tem a pele azulada, aspecto humanóide, pequenas protuberâncias na testa à laia de cornos, e dá a mão a um marciano de ascendência terrestre evidenciada pela sua cor mais esbatida, quase igual à minha. As outras únicas pessoas na sala principal do banco sou eu e os dois criminosos. 

“Deixem-se estar assim.”, diz o magro com a voz a tremer, “Que ninguém se mexa, ou…”, hesita, inseguro, “Ou acaba como o saturnaneliano!”. A plutoniana soltou mais uma camada de visco que empapou ainda mais o velho ao seu lado, que pareceu não notar. Estava demasiado concentrado em manter-se quieto e calado. 

Enquanto o magro nos vigia, o gordo olha para a grande porta blindada do cofre, sem saber muito bem o que fazer. Vasculha a mala apressadamente, atirando ferramentas para fora em total desordem. Sua cada vez mais, as pingas nervosas a cair sobre as ferramentas. Regressa para junto do magro e segreda-lhe ao ouvido. Olham para mim, mas viram rapidamente as cabeças ao encontrarem o meu olhar. Rastejo ligeiramente para mais perto deles, de forma a ouvir o que dizem. 

“Não sei abrir aquela merda!”, sussurra o gordo, “O que é que o gajo quer que a gente faça?”. O magro engole em seco, sem saber o que responder. Talvez eu possa fazer alguma coisa. Apoio os braços no chão de pedra fria e preparo-me para me erguer, mas a jovem marciana antecipa-se, pondo-se em pé com um pulo rápido. Deito-me novamente, muito devagar. As suas feições azuis nada deixam revelar para além de uma determinação implacável bem expressa nos seus olhos amarelos. O magro aponta-lhe rapidamente a caçadeira, “Para o chão! O que raio pensas que estás a fazer?”, grita, “Para o chão!”. 

A marciana recua dois passos, batendo com os calcanhares na testa do namorado. Estar subitamente na mira da arma parece ter quebrado a sua coragem. 

“Eu…”, hesita, “Nós…”, diz, apontando para ela e para o namorado, ainda estendido e esse sim, aterrorizado, “Nós podemos tentar abrir o cofre.”. O magro ergue o sobrolho e parece relaxar, mas sem desviar a arma um milímetro que seja. O resto da sala mantém-se silenciosa enquanto a rapariga ajuda o namorado a pôr-se de pé, ligeiramente contrafeito. “Sim, nós abrimos.”, afirma ele, enquanto treme que nem varas verdes, “Não… Não é preciso morrer mais ninguém.”. 

Encontram-se a pouca distância de mim, e embora o rapaz não consiga desviar o olhar do cano da arma sónica, a rapariga passa rapidamente os olhos por todos os presentes na sala, demorando-se mais em mim do que em qualquer um dos outros. Aceno com a cabeça, tentando expressar a minha gratidão por se adiantar ao que eu próprio tencionava fazer, e ela deixa o olhar regressar, por fim, ao homem magro e nervoso que tem o dedo no gatilho. Este baixa a arma. 

“Fica com a arma.”, diz para o gordo, enquanto lhe passa a caçadeira, “E… Hum… Fica de vigia aqui na sala.”, aponta para o casal marciano, “Eu vou com estes dois tentar abrir o cofre.”. O gordo pega na caçadeira e vira-se para nós, cada vez mais suado e nervoso. O magro segue atrás do casal em direcção ao cofre. 

É então que a plutoniana solta um gemido agudo e descarrega a maior dose de visco até então, fazendo o velho a seu lado tossir e ceder finalmente à vontade de se afastar, enojado. Fá-lo rapidamente e ainda mais rapidamente retoma a uma posição submissa, como se tivesse medo que o matassem até por respirar mais depressa do que era suposto. Uma das figuras trajadas de negro levanta-se, salta para cima da plutoniana e trespassa o seu corpo repetidas vezes com as suas mãos quitinosas, matando-a e regressando à posição original entre os outros dois demasiado depressa para que lhe conseguisse sequer ver a cara. Impressionante. 

“P-p-para que foi isso?!”, quase soluça o gordo, demasiado surpreendido pela rapidez do ataque para ter qualquer outra reacção. A resposta não chega, e as três criaturas misteriosas continuam deitadas e imperturbáveis. 

“Suponho,”, começo eu, “que tenha sido para evitar o nervosismo da senhora de Plutão.”. Todas as caras se viram para mim, excepto as das três criaturas de negro. “Os plutonianos não conseguem esconder o seu nervosismo.”, digo, com esperança de que o resto da explicação fosse óbvia. As cinco caras que me fitam mostram o contrário. Continuo: “Não é boa ideia ter alguém constantemente a guinchar e a derramar fluidos corporais quando se tem um dedo nervoso no gatilho, não é verdade?”. O silêncio reina na sala durante uns momentos, interrompido apenas após o velho tossir, ainda engasgado com o visco da plutoniana. Nessa altura, o casal marciano prossegue em direcção ao cofre, seguidos pelo magro. O gordo continua a tremer e a suar, limpa constantemente as mãos ao fato de banqueiro e afasta-se das três figuras encapuzadas, com a caçadeira levemente erguida na sua direcção. 

A raça dessas três figuras continua a intrigar-me. Aproveito que o magro está longe e o gordo distraído da sua aparente vontade de me matar, para pensar nisso. As mãos, as únicas partes do corpo deixadas a descoberto, estão cobertas de placas quitinosas e terminam em cinco dedos como os humanos, mas parecem ter dois polegares oponíveis e opostos um ao outro. De estatura não devem ultrapassar o metro e trinta, e embora as túnicas ocultem os seus corpos, não os adivinho de alguma forma gordos. Os capuzes também não deixam entrever nada. Por mais que me esforce, não os consigo localizar. Fascinante. 

De repente ouve-se o barulho duma sirene a aproximar-se. Toda a gente se imobiliza de imediato, sem saber o que fazer. O casal marciano abraça-se e assim se deixam cair de joelhos, desaparecendo do meu campo de visão para debaixo dum balcão. O magro engole em seco e aproxima-se lentamente do gordo, que fita a porta do banco, directamente atrás de mim, de olhos esbugalhados; o velho faz o mesmo, mas as três figuras de negro não se mexem um milímetro que seja. 

A sirene está próxima o suficiente para supor que a viatura está parada em frente ao banco. Alguém a desliga, e pouco depois uma voz mecânica grita: “Daqui fala a Polícia Espacial. Esta porta é a única saída, a rendição é a única opção!”. Ninguém na sala se mexe. “Se ninguém me responder dentro de trinta segundos, forçarei a entrada!”. A única resposta é a tosse do velho. Passam dez segundos. Vinte. Vinte e cinco. Vinte e nove. A porta é deitada abaixo com estrondo e levanta uma nuvem de poeira que apenas consegue intensificar a tosse do velho, o visco que lhe obstrui as vias agora cheio de pó. 

“Baixem as armas!”, grita o polícia-ciborgue atrás de mim, “Repito, baixem as armas!”. O gordo está mais aterrorizado do que nunca, e não consigo evitar retrair-me ao vê-lo agitar a caçadeira na minha direcção, sem desviar os olhos do polícia e sem dizer o que quer que seja. Aponta o cano vigorosamente na minha direcção, como que a ameaçar que me desfaz em papa se alguém tentar alguma coisa. O barulho atrás de mim cessa de imediato. 

“Recuar.”, diz a voz metálica, “Recuar imediatamente!”, repete, a voz sem inflexão, mas a rapidez com que fala a demonstrar alguma da ansiedade que ainda preserva nos seus circuitos neuronais orgânicos. Uma vez fora do banco, volta a gritar: “Queremos falar com o terrorista!”. 

Ao ouvir isto levanto-me lentamente, sacudindo o pó. Tiro a caçadeira sónica das mãos do gordo e disparo-a à queima-roupa contra a sua cabeça, que explode com a reverberação. “Bem, uma vez que as autoridades não sabem brincar…”, começo eu a dizer, parando apenas para explodir com a cabeça do velho, “Parece-me que está na altura de acabar com a brincadeira.”. Aproximo-me das três figuras encapuzadas e viro uma delas ao pontapé, revelando finalmente a sua cara, que ostenta a marca triangular dos habitantes de um planetazinho remoto na galáxia de Andrómeda. 

“Ah! Já percebi, não são desta zona… Gostaram da visita?”, pergunto, antes de disparar contra os seus pequenos corpos em sucessão. Aproximo-me finalmente do cofre, onde disparo contra a cabeça do magro sem pensar duas vezes, e ainda chego apontar a caçadeira ao casal marciano que se abraça, as lágrimas a escorrerem abundantemente pelas feições azuladas de ambos. Mas engracei com a rapariga. Em vez disso olho para o cofre por abrir enquanto me baixo, largo a caçadeira e tiro um cubinho metálico de dentro de um bolso atrás da bomba que tenho presa ao peito. Sem nunca largar o detonador que tenho na mão esquerda, pouso a mão direita no ombro do rapaz, que se encolhe ao toque. 

“Cuida bem dela, rapaz.”, digo, embora nenhum dos dois me pareça ouvir. Levanto-me e olho novamente para o cofre. Solto um suspiro. Suponho que haja por aí muitos bancos à espera de serem assaltados. Pressiono dois dos vértices do cubinho, e carrego numa das faces com o indicador, para que a impressão digital seja lida. Com um pequeno barulho, praticamente inaudível, desapareço do banco.

13/05/2014

Ser, dizer, escrever

Corre. Não sei quem és, mas corre. Podes ser um amigo meu, a minha namorada, alguém da minha família ou um perfeito desconhecido. És muitos até eu te ver. E o que é interessante é que és tantos, que também és quem está a escrever.

Sim, nós é que somos três, mas tu é que não te lembras. Aquilo que lês foste tu que escreveste, e aquilo que escrevo não é o que tu lês. Nem tu, nem ninguém. Do pensamento à escrita, e da escrita à leitura, a informação perdida é demasiada.

Um bom escritor consegue minimizar isso, mas nunca eliminar. E eu não sou um bom escritor. Nem sou propriamente um escritor. Mas sei demasiado bem a deturpação natural destas palavras quando as lês, em relação a estas palavras quando as escrevi, e em relação a estas palavras quando as pensei.

Tantas palavras e tão pouco texto. Já podia tentar escrever uma colecção de livros negros. Ou dizer-te o porquê de correres. Mas qual era o objectivo? Tem que haver um objectivo? Correr, ler, conhecer, comer, aprender, escrever... Porque não fazer destas coisas, e de outras, um fim por elas próprias? Não tem tudo isto um valor intrínseco?

Digo isto, mas a minha área não é a filosofia, nem as letras, nem as artes, nem nada que se pareça. Sou de Ciências. A minha vida é repleta de números que não existem, entidades matemáticas impossíveis de visualizar, significados físicos demasiado contra-intuitivos para serem aceites e outras coisas que tais. E no entanto, escrevo algo para além de relatórios e equações.

Culpa da leitura? Da Ciência? Da minha curiosidade natural? De todas, claro. Está tudo ligado. Separado, bem arrumado, mas ligado. É assim que eu sou. Ficarás a saber mais se leres mais alguns textos meus, ainda que muito provavelmente de forma bastante indirecta. Mas no fim, quem sou eu?

Isso interessa?

11/05/2014

Convergência

A palavra “entriangular” é um pouco estranha, confesso. Mas tinha que o ser, para servir de título a este blog. A ideia surgiu de uma convergência curiosa: vontade de escrever com regularidade, vontade de ter um blog de escrita e vontade de ter um projecto de escrita conjunta.

A certa altura lembrei-me das duas pessoas ideais com quem formar um trio de escrita: a Beky e a Alice. A minha amiga louca de Letras e a minha amiga louca de Artes, como carinhosamente lhes chamo (e não há muito tempo apercebi-me que se calhar sou o amigo louco de Ciências delas as duas).

Convidei-as e nenhuma hesitou! A minha ideia inicial tinha sido a de escrevermos diferentes versões/interpretações das mesmas histórias, dando três perspectivas completamente distintas (ou não) da mesma ideia base. Cada um de nós é apaixonado pela sua área, mas temos em comum a escrita e a leitura, e todos temos uma curiosidade que atravessa vários assuntos.

Isto era o ideal. Mentes diferentes, que têm que pensar de formas radicalmente diferentes, mas com pontos em comum. Ainda por cima todos ligeiramente... excêntricos, digamos assim. O que é que se podia pedir mais?

Tempo. Por vários motivos. Nenhum dos três tem uma quantidade razoável de tempo livre. Acho que falo pelo trio, quando digo que o tempo que gastamos a escrever por prazer é tempo roubado. É por isso que este projecto tem andado lentamente.

Mas ainda bem! O lento andamento permitiu uma evolução do conceito inicial: este blog é oficialmente experimental, desafiante, esquizofrénico, tripartido, unificado e certamente um pouco estranho. Tudo pode acontecer. A qualquer altura um pode lembrar-se de desafiar o outro para escrever algo com uns certos constrangimentos. Ou outra coisa qualquer.

Podem-se explorar outros textos, textos uns dos outros, fotos, vídeos, acontecimentos, de tudo um pouco. Ou pode simplesmente apetecer-nos escrever qualquer coisa, e outro de nós vê isso publicado e tem uma ideia e continua o texto. Ou prefacia-o. Ou inverte-o.

O objectivo agora é apenas este: escrever. Motivamo-nos mutuamente, e obrigamo-nos a escrever. E acho que rapidamente vamos entrar num ciclo vicioso... Quantos mais textos formos escrevendo e publicando aqui, mais vamos querer escrever, seja para melhorar, para responder a um desafio, para propôr um, ou simplesmente por estarmos a gostar de ver os nossos escritos no blog.

Seja como for, a experiência vai ser fantástica. Pessoalmente, mal posso esperar. Espero que desse lado também haja alguém a fazer-nos companhia, a gostar e a comentar. Conhecendo as minhas amigas loucas como as conheço, só vamos considerar que o projecto tem sucesso depois de chocarmos algumas pessoas, enraivecermos outras tantas, libertarmos mentalidades e ajudarmos pelo menos uma pessoa a questionar a realidade.

Por agora, sejam bem vindos!