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15/05/2014

Entriangulação


« Entriangula­-te .»

 A voz falou ao seu ouvido, uma vez mais. Suspirou. Subiu ao banquinho de madeira, passou a cabeça pela argola e olhou à volta uma última vez. A fotografia dele estava na mesa junto à porta, fitando-a com aqueles olhos que tao bem conhecia, como que penetrando-a, lendo-lhe os pensamentos. De repente, os seus lábios abriram e fecharam e a palavra que lhe dissera nesse dia em que a deixou surgiu mais uma vez : « Entriangula­-te ». O corpo contorceu-se uma última vez enquanto saltava do banco. Viriam a encontrá-lo pouco tempo depois, pendendo do tecto, inerte. Causa de morte: entriangulamento.

Pobre tonta! Anulou assim a sua existência, sem perceber que lhe pediam não para se dividir, mas para se multiplicar. Entriangulado é aquele  que  consegue  existir  em três,  que sai  e entra  em mundos diferentes – um perdido  em frascos de químicos, outro  coberto por frascos de tinta,  e  o  último  de  frascos  com  mensagens  atirados  ao  mar.  Misturam-se assim os três numa reacção  química,  movimento  artístico  ou  literário, seja  la  o  que  lhe  quiserem  chamar,  para se alargarem  aos mundos  uns  dos  outros, seguindo  por  caminhos tri­-forcados  que  nunca  pensariam escolher. Esperemos pelo resultado. De qualquer forma , já não há remédio: entriangulamo­-nos uns nos outros.

13/05/2014

Ser, dizer, escrever

Corre. Não sei quem és, mas corre. Podes ser um amigo meu, a minha namorada, alguém da minha família ou um perfeito desconhecido. És muitos até eu te ver. E o que é interessante é que és tantos, que também és quem está a escrever.

Sim, nós é que somos três, mas tu é que não te lembras. Aquilo que lês foste tu que escreveste, e aquilo que escrevo não é o que tu lês. Nem tu, nem ninguém. Do pensamento à escrita, e da escrita à leitura, a informação perdida é demasiada.

Um bom escritor consegue minimizar isso, mas nunca eliminar. E eu não sou um bom escritor. Nem sou propriamente um escritor. Mas sei demasiado bem a deturpação natural destas palavras quando as lês, em relação a estas palavras quando as escrevi, e em relação a estas palavras quando as pensei.

Tantas palavras e tão pouco texto. Já podia tentar escrever uma colecção de livros negros. Ou dizer-te o porquê de correres. Mas qual era o objectivo? Tem que haver um objectivo? Correr, ler, conhecer, comer, aprender, escrever... Porque não fazer destas coisas, e de outras, um fim por elas próprias? Não tem tudo isto um valor intrínseco?

Digo isto, mas a minha área não é a filosofia, nem as letras, nem as artes, nem nada que se pareça. Sou de Ciências. A minha vida é repleta de números que não existem, entidades matemáticas impossíveis de visualizar, significados físicos demasiado contra-intuitivos para serem aceites e outras coisas que tais. E no entanto, escrevo algo para além de relatórios e equações.

Culpa da leitura? Da Ciência? Da minha curiosidade natural? De todas, claro. Está tudo ligado. Separado, bem arrumado, mas ligado. É assim que eu sou. Ficarás a saber mais se leres mais alguns textos meus, ainda que muito provavelmente de forma bastante indirecta. Mas no fim, quem sou eu?

Isso interessa?