14/10/2014

12h35



Os relógios pararam às 12h35, deixando por toda a casa um eco silencioso. Cerca de setenta aparelhos espalhados pelas várias divisões a quem os ponteiros congelaram de repente e para toda a eternidade. Aos noventa e dois anos, Martim já não tinha força para se levantar e dar corda aos velhos relógios que tanto estimava e colecionara durante toda a vida. Deitado na cama, lembrou-se do primeiro que comprara, aos vinte anos, quando terminada a tropa regressava à sua cidade-natal, os bolsos mais cheios do que quando partira, e passando num relojoeiro – um relojoeiro à séria, daqueles que se dedicava de corpo e alma ao negócio, não um destes charlatães de hoje em dia – viu na montra o mais lindo relógio de que tinha memória.

Era todo esculpido em madeira, um único bloco trabalhado dias a fio com um cinzel, os ponteiros e o pêndulo feitos em prata, onde mandou o gravar o seu nome de família “da Veiga”. Colocou-o no centro da sala de estar, que nesse tempo não estava reservado a televisões, para que as suas visitas o pudessem admirar e nunca se atrasassem nos seus compromissos. Valia-lhe sempre os mais valiosos elogios “que lindo relógio”, “uma verdadeira relíquia”, pelo que Martim se apaixonava todos os dias pela peça, ao ponto de procurar o relojoeiro para lhe fazer uma outra, ao mesmo nível da primeira, que pudesse trazer sempre consigo.

O segundo relógio pendia assim de uma corrente em ouro. O mostrador era em veludo azul, no qual repousavam os ponteiros, duas delicadas patas de borboleta. Não tinha números, em vez disso fora esculpido no ouro uma marca para cada quarto de hora e um minúsculo diamante indicava as doze.

Tornou-se tradição. Uma vez por ano Martim da Veiga pegava nas suas poupanças e fazia visita ao relojoeiro. Não queria saber de férias, que considerava uma perda de tempo – para quê sair de casa quando tudo o que precisamos está aqui? – nem de grandes luxos. O dinheiro que tinha gastava-o no que mais gostava, os seus relógios. Aos noventa e dois anos, cerca de setenta aparelhos de todos os tamanhos e feitios espalhavam-se pelas divisões, ora pendurados nas paredes, ora pousados em mesas, cómodas e estantes, relógios de pé encostados a um canto, outros de pulso guardados em caix­as e bolsas de couro, relógios com numeração romana ou ocidental, com todos os números ou sem nenhum. Relógios em ouro, prata, madeira ou latão, tudo valia desde que o relógio fosse bonito – só havia um tipo de relógio proibido, os relógios digitais e a pilhas, tudo o que fosse plástico, barato e fácil de estragar. Não, relógios queriam-se era à antiga!

Assim, duas vezes ao dia, Martim perdia quarenta minutos a dar corda aos relógios, uma assim que se levantava e outra antes de se deitar. Era um hábito quase tão importante como escovar os dentes ou lavar a cara, e Martim percorria todas as divisões sem se esquecer de nenhum aparelho, dando-lhes corda com o mesmo carinho que dera no dia da sua compra.

Naquele dia dos seus noventa e dois anos Martim da Veiga não conseguiu, no entanto, levantar-se para dar corda aos relógios. Sentia-se extremamente cansado, e apesar de ter tentado, várias vezes, sair da cama, parecia faltar-lhe a força nas pernas. Deixou-se ficar, ouvindo o tique-taque que pouco a pouco foi esmorecendo, à medida que também aos relógios iam as forças. Às 12h35 congelou o último ponteiro, e a casa ficou mergulhada em silêncio. Era uma coisa tenebrosa: sem o murmúrio dos setenta relógios, que durante toda a sua vida tinham preenchido a casa, o espaço parecia incrivelmente vazio, como se de repente se tivessem despido as paredes, e aberto um poço tão profundo que não se via o fim.

O velho começou a sentir-se terrivelmente só.

Nunca até então se tinha sentido assim, como se lhe faltasse qualquer coisa por dentro, como se também a sua voz se fosse com o calar das engrenagens. Abriu a boca para gritar, mas sentiu que o ar lhe faltava. O que se escondia por trás da sua porta?, pensou.

Respondeu-lhe o silêncio. Tique-taque, apenas o seu coração batia.

O que se escondia por trás da sua porta? (Tique-taque.) O que se escondia no silêncio e que o mecanismo dos relógios (tique), o cantar dos cucos e o bater dos pêndulos tinham ocultado tanto tempo? (Taque.) O velho abriu a boca para gritar, mas saiu-lhe apenas um suspiro, o último sopro da sua vida. (Tique…)

A hora da sua morte ficaria para sempre congelada nos cerca de setenta relógios espalhados pelas várias divisões da sua casa; 12h35.

05/10/2014

Sozinho

Quando acordou não imaginava que ia morrer ao fim do dia. Levantou-se e fez a sua rotina normal, como se tivesse uma vida, uma década, um ano, um mês, uma semana, um dia pela frente. Saiu de casa e fez o caminho do costume, estava Sol, um dia bonito, disse os seus bons-dias e ouviu os dos outros, sorriu, assobiou, respirou, sentou-se.

Ouviu a chefe, ouviu os colegas, ouviu os clientes, não reteve nada. O seu trabalho era ouvir, não era lembrar. Ouvia, respondia, ouvia, respondia, ouvia, respondia, sempre tinha funcionado e sempre iria funcionar, para quê forçar outra coisa?

Um telefonema. Acabou de chegar do almoço com alguns colegas, durante o qual distribuiu piadas e gargalhadas como se se quisesse ver livre delas. O telefona toca a sua hora, e ele atende-o a toda a hora, é esse o seu trabalho, mas com aquele telefonema pensou duas vezes.

O telefone tocou da mesma forma, nada aconteceu de diferente. Excepto a percepção que ele teve. Não ouviu o telefone, ouviu a urgência de quem estava do outro lado, a urgência de quem precisa de falar, a urgência de quem acha que está a lidar com a morte.

Atendeu. O pai morreu, diz a irmã, chorosa, urgente, sem perceber. Desliga o telefone, a irmã continua a chorar e a não perceber, não dá conta. Ele continua a falar com clientes, porque percebe, sabe que o pai não morreu, a irmã apenas acha que sim. Se o pai tivesse morrido, ela não tinha urgência nenhuma, para quê sentir urgência com a morte, com os mortos? Não vão a lado nenhum.

Saiu do trabalho já com o Sol fora de vista, e ligou o telemóvel. Tinha-o desligado para não ter que ouvir mais ninguém que não percebia. O meu pai morreu, o teu pai morreu, ele era o meu tio favorito, gostava tanto dele, quem me dera ter passado mais tempo com ele, o teu pai morreu.

Ignorantes, todos, todos, todos. Inúteis. Não percebiam. Mas ele sim. Ele foi até ao cruzamento do costume e virou para a rua errada, andou ao ritmo errado, procurou pela casa certa. Bateu. Tocou. Abriram e entrou.

O meu pai morreu. Oh meu deus oh meu deus oh meu deus, estás bem, o que é que aconteceu, como é que te sentes. Voz urgente, tom urgente, sentimentos urgentes, pessoa urgente, pessoa ignorante. Não, também não percebia. Por muito amiga que fosse dele, também não percebia. Não percebes, o meu pai morreu, mas tu não percebes, não percebo o quê, não percebes, não dizes coisa com coisa, não preciso, o meu pai morreu.

Saiu, a amiga ligou à irmã dele, choraram as duas, não ligaram ao comportamento dele, está em choque, não aguentou, não atende o telemóvel a ninguém. Enquanto isso ele saiu da casa certa, ao ritmo certo, em direcção à rua certa e chegou a casa. Deixou-se cair na poltrona e agarrou na fotografia que estava na mesa ao lado, olá pai, olá filho, morreste, não morri nada, eu sei, eles não percebem, pois não, só tu meu filho, só eu, só eu, só eu, vem ter comigo, vem tu, não posso desmorrer, nem eu posso desviver, mas podes morrer.

Largou a fotografia, foi buscar uma faca, saiu um garfo, deixou-o cair, tirou uma faca, agora sim, voltou à poltrona, não escreveu bilhete, não pensou duas vezes, espetou-a no coração, que também não pensou duas vezes e morreu. O pai morreu e agora o filho, e a fotografia caiu, encheu-se de sangue, não era uma fotografia, era uma folha em branco.

29/09/2014

(outro) Escuro


(c)ideiafixa

Quando nasceste, fechaste os olhos.

Foi a primeira coisa que fizeste antes de deixares o corpo da tua mãe, adivinhando o que aí vinha: darem-te à luz, ofuscarem-te de repente com a claridade do mundo. Quando nasceste fechaste os olhos, mas dentro do corpo daquela que te deu nome tinha-los bem abertos. ­Há quem diga que o útero encerra mil e uma cores, algo parecido com a sensação do sol a penetrar as pálpebras cerradas, uma aurora boreal de vermelhos e laranjas desconcertados. Enganam-se. O útero está às escuras.

Foi assim que decidi receber-te, a ti e aos vários mundos que me habitam. Os homens aprenderam a associar-me às coisas más que a vida lhes dá, como se fosse minha a culpa de eles terem ganho medo ao desconhecido. Como se o desconhecido fosse uma coisa má…

Sempre associei o desconhecido à surpresa, à alegria do inesperado, à intriga do mistério. Escolhi encher-me desta opacidade para resguardar o saber. Queria ser uma espécie de nada para que dele viesse um todo. Queria ser uma espécie de espaço fora do próprio tempo, de forma a alcançar a perfeição. No escuro há tempo para reconstruir o que está errado, fazê-lo certo. Na luz não há espaço para erros.

Ah, mas bem depressa aprendeu o Homem a temer-me. Primeiro as crianças, com medo de que a luz se acenda e tudo tenha desaparecido, como se de uma ilusão se tratasse. Temem-me, por se sentirem incapazes de abdicar do mundo que ainda mal se lhes abriu e ainda não experimentaram completamente. Depois, em adultos, passam a temer o momento de fechar os olhos pela última vez, o escuro derradeiro que traz a morte, desconhecendo que do escuro só pode vir o tudo, nunca o nada.

Parece-me estranha esta conotação que me foi associada, quando vos dou tantos sinais da minha inocência. Só no escuro consegues a calma necessária para adormeceres. É o momento em que estás mais vulnerável, em que o teu inimigo poderia baixar-se sobre o teu rosto até lhe sentires a respiração, em que poderia passar-te um dedo pelo pescoço, fácil e certeiro, e tu não notarias nada, comprometido que estarias nos teus próprios sonhos. E mesmo assim, aceitaste sem questionar em confiar-te à escuridão, sabendo que ali estás protegido, como estavas no útero de tua mãe.

É também em mim que escolhes exercer o ritual último de ligação a alguém, quando entregas o teu corpo nu, indefeso, a essa outra pessoa que chamas tua. Dás-te completamente, no negro do quarto e dos lençóis, movendo-te uma paixão desenfreada, uma explosão de sentimentos que aquecem a alma. Não há o medo que em mim associas, pelo contrário, é assim que te parece mais certo que seja – no escuro.

Mas o maior presente que te trago é o poder mágico que te permite dividires-te de tudo aquilo que é físico e criares o teu próprio mundo. De fazeres aparecer coisas que não existem ou viveres uma vida que não é a tua. De criares palavras, sons, formas e cores. Sim, desse nada que é a obscuridade nascem o pensamento e a criatividade, a imaginação e o sonho. E que mais podes querer? Se do escuro do útero se forma o Homem, do escuro do Universo se formam mundos e do escuro da mente se formam ideias. É do negro mais negro que nascem as coisas, dessa imensidão de nada que leva ao tudo.

Quando nasceste fechaste os olhos. Negavas a luz, o que de novo te trazia. Depois habituaste-te a ela e fugiste de mim. Sou a causa das coisas más, das doenças e de tudo o que é sujo. É em mim que se escondem as criaturas vis, os sorrisos maliciosos e os sentimentos de vingança. Acusas-me de dedo em riste, esquecendo-te que és tu o causador daquilo de que te escondes. Eu sou um mar de opções, tu escolheste as tuas.

Mas agora é de mim que tens medo. Tens medo do escuro.