05/10/2014

Sozinho

Quando acordou não imaginava que ia morrer ao fim do dia. Levantou-se e fez a sua rotina normal, como se tivesse uma vida, uma década, um ano, um mês, uma semana, um dia pela frente. Saiu de casa e fez o caminho do costume, estava Sol, um dia bonito, disse os seus bons-dias e ouviu os dos outros, sorriu, assobiou, respirou, sentou-se.

Ouviu a chefe, ouviu os colegas, ouviu os clientes, não reteve nada. O seu trabalho era ouvir, não era lembrar. Ouvia, respondia, ouvia, respondia, ouvia, respondia, sempre tinha funcionado e sempre iria funcionar, para quê forçar outra coisa?

Um telefonema. Acabou de chegar do almoço com alguns colegas, durante o qual distribuiu piadas e gargalhadas como se se quisesse ver livre delas. O telefona toca a sua hora, e ele atende-o a toda a hora, é esse o seu trabalho, mas com aquele telefonema pensou duas vezes.

O telefone tocou da mesma forma, nada aconteceu de diferente. Excepto a percepção que ele teve. Não ouviu o telefone, ouviu a urgência de quem estava do outro lado, a urgência de quem precisa de falar, a urgência de quem acha que está a lidar com a morte.

Atendeu. O pai morreu, diz a irmã, chorosa, urgente, sem perceber. Desliga o telefone, a irmã continua a chorar e a não perceber, não dá conta. Ele continua a falar com clientes, porque percebe, sabe que o pai não morreu, a irmã apenas acha que sim. Se o pai tivesse morrido, ela não tinha urgência nenhuma, para quê sentir urgência com a morte, com os mortos? Não vão a lado nenhum.

Saiu do trabalho já com o Sol fora de vista, e ligou o telemóvel. Tinha-o desligado para não ter que ouvir mais ninguém que não percebia. O meu pai morreu, o teu pai morreu, ele era o meu tio favorito, gostava tanto dele, quem me dera ter passado mais tempo com ele, o teu pai morreu.

Ignorantes, todos, todos, todos. Inúteis. Não percebiam. Mas ele sim. Ele foi até ao cruzamento do costume e virou para a rua errada, andou ao ritmo errado, procurou pela casa certa. Bateu. Tocou. Abriram e entrou.

O meu pai morreu. Oh meu deus oh meu deus oh meu deus, estás bem, o que é que aconteceu, como é que te sentes. Voz urgente, tom urgente, sentimentos urgentes, pessoa urgente, pessoa ignorante. Não, também não percebia. Por muito amiga que fosse dele, também não percebia. Não percebes, o meu pai morreu, mas tu não percebes, não percebo o quê, não percebes, não dizes coisa com coisa, não preciso, o meu pai morreu.

Saiu, a amiga ligou à irmã dele, choraram as duas, não ligaram ao comportamento dele, está em choque, não aguentou, não atende o telemóvel a ninguém. Enquanto isso ele saiu da casa certa, ao ritmo certo, em direcção à rua certa e chegou a casa. Deixou-se cair na poltrona e agarrou na fotografia que estava na mesa ao lado, olá pai, olá filho, morreste, não morri nada, eu sei, eles não percebem, pois não, só tu meu filho, só eu, só eu, só eu, vem ter comigo, vem tu, não posso desmorrer, nem eu posso desviver, mas podes morrer.

Largou a fotografia, foi buscar uma faca, saiu um garfo, deixou-o cair, tirou uma faca, agora sim, voltou à poltrona, não escreveu bilhete, não pensou duas vezes, espetou-a no coração, que também não pensou duas vezes e morreu. O pai morreu e agora o filho, e a fotografia caiu, encheu-se de sangue, não era uma fotografia, era uma folha em branco.

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