17/05/2014

Triário

O meu nome é Helena e sou operadora de caixa no hipermercado X. Trabalho no hipermercado X porque gosto muito mais que do meu antigo emprego. Aqui mudo de personalidade em cada um dos corredores de mercadoria e no armazém não tenho identidade.

Às três da tarde, hora da minha pausa, como sempre um bolo de arroz.

A minha secção preferida do hipermercado X é a do peixe porque está decorada em tons de azul. Apetece-me sempre enterrar as mãos no gelo para que quando as retirasse não as sentir. Estariam quentes de tanto frio, seriam somente cheiro a peixe e de repente, sentiria as mãos pelo nariz. Se também se desse o caso de ser cega e nunca tivesse visto mãos acharia que eram peixes. Hoje vou procurar imagens de praias da Islândia no Google porque nunca vi como são. Lembro-me de quando as meninas do supermercado andavam de patins. Nessa altura também havia mães que iam às compras com os filhos presos por trelas.


Eu escondia-me da minha mãe entre os cabides das camisas-de-noite e ela ameaçava por-me uma trela como faziam as outras mães.

O ladrilho do chão da zona do talho é de um branco assassino e as arestas retas dos azulejos parecem querer cortar os pés de quem as pisa. Deviam ser triangulares para lhes não caberem dois pés em cima, arestas condenadas ao exílio do mundo binário.


Mas felizmente há quem goste de coisas a três, PIP. 

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